Pages

domingo, 10 de janeiro de 2010

Que tal viver a vida?!


Pois é, a nova novela das 21h da Rede Globo nos apresenta mais uma das muitas histórias recheadas de “vida real” do autor Manoel Carlos. Sabemos que o enfoque dos folhetins do autor são assuntos de relevância a serem debatidos em casa, trabalho, escolas, enfim. No momento, o assunto é a modelo, Luciana, que após sofrer um acidente, vê-se tetraplégica em pleno decolar de sua carreira. Muito difícil discutir sobre. Afinal, existem visões bastante diferentes sobre como lidar com essa situação. Percebemos isso na novela. A mãe se comporta de uma forma, alguns amigos de outra, pai, namorado, irmãs, e coisa e tal.

O que, na verdade, me chamou a atenção, foi a maneira como a qualidade de vida da personagem é abordada. Entendo que todas as pessoas naquela situação, tenham que passar pelos processos de adaptação, que começam com a aceitação daquilo tudo, o medo do preconceito, a sensação de invalidez, tudo que assistimos a Luciana passar. Até aí, tudo bem, a estória foi bem desenrolada.

Só começo os questionamentos no tocante ao dia-a-dia de uma pessoa tetraplégica. Ora, sou brasileira, mãe de uma criança que nasceu com necessidades especiais – por isso é dependente de cadeira de rodas para locomoção – também conheço casos parecidos e sei bem que a coisa não funciona tão “bonitinha” como mostra a novela. Por que digo “bonitinha”? Vou explicar...

Não é a realidade da maioria das pessoas na condição de tetraplégica que tem uma família com condições financeiras de adaptar a casa onde mora pra receber o ente; não é a realidade dessas pessoas terem motoristas à postos para levá-las aos médicos e passeios; não é a realidade da maioria dessas pessoas terem um carro onde a cadeira de rodas pode ser levada sem precisar maiores esforços; não é a realidade dessas pessoas que enfermeiros e terapeutas estejam à disposição para os cuidados e o avanço dos pacientes; não é a realidade dessas pessoas que a única preocupação seja como elas vão descer a escada do apartamento cobertura para jantar com a família; não é a realidade dessas pessoas que elas possam escolher morar numa mansão que oferece maior conforto para elas, entre outras coisas.

Entendo, claro, que a novela serve pra chamar o debate. Não é necessária a exploração de um sofrimento excessivo porque isso iria, talvez até, diminuir a audiência. Só é seguida porque é novela. E em novela, no final, tudo tem que dar certo. Mas acho que preciso comentar o que é fato diante dos meus olhos. Nada pode ser tão trágico que chegue a ser bonito. Claro que toda tragédia traz lições (sei disso muito bem), são tristezas e alegrias; lágrimas e sorrisos; perdas e ganhos. Sempre assim. Mas não dá pra não citar o mundo cor de rosa da Luciana. Sem falar que ela ainda tem os gêmeos (lindos) brigando por ela, né? Ah, Maneco, assim já é um exagero do tamanho do mundo. rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs

Não quero tirar o encantamento pela novela. Gosto de novelas. Essa possibilidade que a novela nos dá de viver o real dentro do irreal é encantadora, mas, por trás das câmeras, as “Lucianas” não vivem esse glamour.

Nenhum comentário:

Postar um comentário